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A Obra de Bauman é riquíssima e muito adequada à reflexão, uma vez que trata de temas contemporâneos. Alguns de seus livros tem um traço em comum: trata de liquidez ( Amor Líquido, Vida Líquida e Modernidade Líquida).
Essa Liquidez refere-se fluidez, à impermanência do nosso existir.
Para o Sociólogo, a vida muda rapidamente e não dá tempo de assimilar nada. Isso equivale a dizer que os valores que deveriam permanecer também se liquefazem.
No Livro " Amor líquido" , o Sociólogo trata da impermanência afetiva, da forma como os romances hoje nascem e são descartados no dia seguinte, quando então novos amores aparecem e novamente são descartados. Urge que os anseios imediatos sejam atendidos, não há preocupação com afetividade, sem com durabilidade.
E vemos isso acontecer, sobretudo nos romances cibernéticos: a internet hoje é uma vitrine de gente. Os indivíduos escolhem parceiros que atendam a determinados perfis, descartando outras opções (liquidez). Naturalmente, muitos romances que começam dessa forma estão fadados ao fracasso, porque não há profundidade afetiva; embora a maioria das pessoas espere encontrar um "alguém especial", preferem "escolher um pouco mais", afinal a oferta é tão grande.
Poucos se interessam em conhecer melhor aquela pessoa que está do outro lado do monitor; saber seus anseios, sobre seu passado, o que espera do futuro. Não. O retorno tem de ser imediato, pois as coisas mudam " a fila anda"... Fluidez!
Cugini salienta que
Bauman utiliza uma definição de Catherine Jarvie, jornalista inglesa, para expressar melhor o sentido das relações afetivas na pós-modernidade:
relações de bolso. Estas são bem sucedidas quando são doces e de curta duração. Uma “relação de bolso” é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade. Bauman aponta duas condições para os “relacionamentos de bolso” funcionarem. “Primeira condição: deve-se entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente só-brio. Lembre-se: nada de amor à primeira vista aqui” (Bauman, 2003 p.37). A única coisa que conta é a convivência e, para isso, é necessária uma cabeça fria. É o fim de qualquer tipo de paixão e de envolvimento emotivo que possam colocar em risco o futuro das pessoas envolvidas. “Não se deixe dominar nem arrebatar, e acima de tudo não deixe que lhe arranquem das mãos a calculadora” (BAUMAN, 2003, p.37). Num mundo inseguro, é extremamente arriscado investir a própria existência em relacionamentos afetivos ao longo prazo, e
isso porque os afetos mudam.
Mas não é só no mundo cibernético que as coisas ocorrem (eu enfatizo as relações virtuais pois sou estudiosa deste assunto). Este mundo é apenas uma cópia da sociedade líquida em que estamos inseridos. E nesta sociedade, as relações também são descartáveis, e não apenas as afetivas, mas as relações profissionais, relações de amizade, relações familiares, etc... Os valores da sociedade pós-moderna são Líquidos.
As amizades são valorizadas enquanto oferecem algo. Poucas sobrevivem às verdadeiras tragédias, aos momentos dolorosos, de perdas, de luto, de agonia! A maioria é baseada em interesse imediato, como se fosse uma moeda de troca: " quer ser meu amigo? mas o que você tem pra me oferecer?" " esta oferta é equivalente à minha?" "Não é? Tchau"
Isso tem um custo: gera um mal-estar na sociedade, mal-estar que é percebido através de pequenas atitudes que verificamos cotidianamente. Uma delas é a forma como as pessoas se agridem em época de festas ou férias, tentando dar uma vazão àquele sentimento de mal-estar reprimido. Claro, cada-caso-é-um-caso. Mas estamos tratando aqui de sociedade... portanto, continuemos nesta linha.
Cugini aponta que
Se os relacionamentos humanos são equiparados ao nível da mercadoria e tudo é visto sob a óptica do consumo, então tudo deve ser mudado continuamente, pois a novidade vai progressivamente se desvanecendo e se apagando. Isso se torna ainda mais visível e, de uma certa forma, compreensível no mundo das novas tecnologias.Confirmando a teoria de Bauman:
Uma chamada não foi respondida? Uma mensagem não foi retomada? Também não há motivo para preocupação. Existem muitos outros números de telefone na lista [...] Há sempre mais conexões para serem usadas e assim não tem grande importância quantas delas se tenham mostrado frágeis e passíveis de ruptura (Bauman, 2003 p.79)
Quando o assunto é consumismo, destaca-se que as verdadeiras mercadorias são as pessoas. Os produtos são fabricados para atrair consumidores, que ávidos de desejo farão qualquer coisa pra obter seu bem de consumo. Isso ocorre em partes porque há uma publicidade bem elaborada, que agrega valores pessoais aos bens de consumo (Qualquer semelhança com a teoria Pavloviana NÃO é mera coincidência). As pessoas são levadas a crer que: pra demonstrar afeto pelos entes queridos, os presentes devem ser caros; Serão aceitas somente se tiverem O corpo perfeito, se usarem a vestimenta da moda; se frequentarem determinados ambientes.
Isso leva as pessoas a acreditarem que se não consumirem isso ou aquilo, não PODEM SER CONSIDERADAS PESSOAS!! Refiro-me aqui à noção de pessoa encontrada na obra de Virginia Moreira que trata da noção capitalista de pessoa desta forma como aquela que é livre para competir: "Em uma sociedade capitalista o homem não trabalha para viver, mas vive para trabalhar" (MOREIRA, p. 171).
Sobre isso, Cugini conclu que
É claro que isso produz restos, lixo, algo que deve ser descartado, pois, onde há projetos, há refugos. Na visão sociológica de Bauman, o processo de transformação pode ser aplicado ao mundo globalizado que, na sua empolgação compulsiva para produzir bem de consumo está, ao mesmo tempo, produzindo um número impressionante de lixo. O mundo ocidental pode ser lido a partir destas categorias não muito simpáticas, mas extremamente reveladoras. O lixo ao qual Bauman se refere não é apenas no sentido material, mas, sobretudo, humano. São milhões de pessoas que o mundo Ocidental evoluído trata como lixo, como algo indesejável, que deve ser descartado. A modernidade está elaborando um mundo para poucos[...] Numa sociedade de consumidores quem não tem dinheiro para adquirir a mercadoria, está fora, atrapalha. Existe, então, toda uma população “excedente”, “supérflua”, que nunca terá chance de fazer
parte do mundo pensado, projetado da modernidade.
Eu entendo o quanto isso deve doer, sobretudo naquelas pessoas que vivem para consumir. Que acreditam que seus valores estejam realmente atrelados aos bens de consumo: ao carro do ano, ao apartamento na praia, à joia, etc. Mas isso não deve ser tão valorizado assim, porque o verdadeiro valor de um homem está no que ele É, não no que ele TEM. Se você convive com pessoas que te valorizam pelo que você TEM e você não concorda com isso, mude de amigos imediatamente. Não gaste seu suor pra agradar pessoas que irão te descartar assim que a moda mudar!
Para refletir eu indico:
3a. do Plural - Engenheiros do Hawaii.
Corrida pra vender cigarro
Cigarro pra vender remédio
Remédio pra curar a tosse
Tossir, cuspir, jogar pra fora
Corrida pra vender os carros
Pneu, cerveja e gasolina
Cabeça pra usar boné
E professar a fé de quem patrocina
Querem te matar a sede, eles querer te sedar
Eles querem te vender, eles querem te comprar
Cigarro pra vender remédio
Remédio pra curar a tosse
Tossir, cuspir, jogar pra fora
Corrida pra vender os carros
Pneu, cerveja e gasolina
Cabeça pra usar boné
E professar a fé de quem patrocina
Querem te matar a sede, eles querer te sedar
Eles querem te vender, eles querem te comprar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Quem eles pensam que são?
Corrida contra o relógio
Silicone contra a gravidade
Dedo no gatilho, velocidade
Quem mente antes diz a verdade
Satisfação garantida
Obsolescência programada
Eles ganham a corrida antes mesmo da largada
Silicone contra a gravidade
Dedo no gatilho, velocidade
Quem mente antes diz a verdade
Satisfação garantida
Obsolescência programada
Eles ganham a corrida antes mesmo da largada
Eles querem te vender, eles querem te comprar
Querem te matar de rir, querem te fazer chorar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Querem te matar de rir, querem te fazer chorar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Vender, comprar, vendar os olhos
Jogar a rede... contra a parede
Querem te deixar com sede
Não querem te deixar pensar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Jogar a rede... contra a parede
Querem te deixar com sede
Não querem te deixar pensar
Quem são eles?
Quem eles pensam que são?
Referências
Bauman, Zygmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 200
CUGINI, Paolo. Identidade, Afetividade e a Mudanças Relacionais na Modernidade Liquida na Teoria de Zygmunt Bauman. [Online]. Disponível em:
http://www.faculdadesocial.edu.br/dialogospossiveis/artigos/12/artigo_10.pdf. acesso em 28/dezembro/2011
Moreira, Virginia. De Carl Rogers a Merleau Ponty: a pessoa mundana em psicoterapia. AnnaBlue, São Paulo, 2008.
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