Pra dizer o mínimo, Storr é BRILHANTE! Conseguiu articular com muita facilidade diversos conceitos da psicanálise, do Behaviorismo, da neuropsicologia e da Psicologia do Desenvolvimento, produzindo um trabalho fácil e gostoso de ler.
Voltando à verdade-mentira:
Sempre ouvir dizer que "uma pessoa solítária demais é problemática", " só pode ser esquizofrênica, coitadinha, não tem amigos", ou então " essa pessoa deve ser uma praga, ninguém quer ser amigo dela"... ou pior ainda.. " vai passar o natal sozinho???? É LOUCO".
Na escola quase todas as garotas vão ao banheiro com a melhor amiga, ou na ausência dela, com a colega mais próxima, mas dificilmente sozinha.
As novelas mostram que as pessoas desejam ficar a sós quando estão passando por alguma situação problema, jamais pra refletir..
Nos restaurantes ou nas praças de alimentação dificilmente vê-se alguém fazendo suas refeições sozinho.
Parece que é crime estar sozinho!! E isso porque estamos em plena era do individualismo..
Ao perceber o comportamento gregário das pessoas, sempre me perguntei a razão pela qual eu gosto de estar sozinha. Seria eu uma pessoa "diferente"? Portadora de alguma "patologia não categorizada-incurável-intratável-impenetrável"?
Naturalmente eu tenho boas amizades. E gosto muito da companhia delas. Mas em alguns momentos eu preciso encontrar comigo mesma, para ser um pouco mais eu. Acredito que é na solidão que podemos dar vazão aquilo que está em nosso inconsciente, sem a possibilidade das detestáveis interrupções. É nesse encontro precioso que conseguimos ouvir aquela voz que tá gritando, mas que nunca é ouvida.
"Na escuridão, o invisível salta aos olhos" HG
Sempre gostei do silêncio dos parques, das igrejas e das bibliotecas. Sempre gostei de dirigir em estradas desertas. Tais lugares configuram-se para mim como verdadeiros pedaços de paraíso na terra.
No silencio uma catedralUm templo em mim
Onde eu possa ser imortal
mais vai existir
eu sei, vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar
Solidão
Quem pode evitar
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e desagua dentro de mim
Amanhã, devagar
Me diz como voltar
Storr [p. 47] fala que o apego é fundamental à sobrevivência da criança mas que somente quando experimenta a sensação de estar sozinha é capaz de descobrir o que realmente deseja, pois:
a capacidade de ficar sozinho passa a estar ligada à descoberta e à realização de si, à conscientização de nossos mais profundos sentimentos, impulsos e necessidades [p. 55]Para o autor, tal conscientização na presenta dos outros é impossível, pois eles nos roubam de nós mesmos, e o que é muito pior, precisamos usar máscaras sociais quase o tempo todo, na busca de aceitação social, por isso é muito raro que sejamos autênticos no nosso cotidiano.
Storr justifica:
para que a sociedade funcione sem sobressaltos, certamente há ocasiões que temos que fingir, ser simpáticos quando estamos cansados, sorrir quando queremos grunhir. essa dissimulação é fatigante. [p. 191]
Naturalmente não estou defendo a "autenticidade-em-praça-pública". Não dá pra fazer o que se quer quando quiser. Existem questões de decoro, éticas e morais envolvidas [ normas sociais]. Por isso a imperiosa necessidade de solidão.
Pra encerrar, fica registrada aqui a música que me acompanha nos meus "mergulhos"..
feche a porta, esqueça o barulho
feche os olhos, tome ar: é hora do mergulho
feche os olhos, tome ar: é hora do mergulho
eu sou moço, seu moço, e o poço não é tão fundo
super-homem não supera a superfície
nós mortais viemos do fundo
eu sou velho, meu velho, tão velho quanto o mundo
super-homem não supera a superfície
nós mortais viemos do fundo
eu sou velho, meu velho, tão velho quanto o mundo
eu quero paz:
uma trégua do lilás-neon-Las Vegas
profundidade: 20.000 léguas
"se queres paz, te prepara para a guerra"
"se não queres nada, descansa em paz"
"luz" - pediu o poeta
(últimas palavras, lucidez completa)
depois: silêncio
uma trégua do lilás-neon-Las Vegas
profundidade: 20.000 léguas
"se queres paz, te prepara para a guerra"
"se não queres nada, descansa em paz"
"luz" - pediu o poeta
(últimas palavras, lucidez completa)
depois: silêncio
esqueça a luz... respire o fundo
eu sou um déspota esclarecido
nessa escura e profunda mediocracia
eu sou um déspota esclarecido
nessa escura e profunda mediocracia
Referências:
Storr, A. Solidão: a conexão com o eu. Ed. Bevirá, São Paulo, 2011.
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